10 agosto 2009

A Convenção de Vendas

O novato entra no quarto, todo suado e com arranhões nos braços. Seu colega, um vendedor bem mais experiente, está sentado na cama passando mertiolato no pé.

– Pensei que desta vez sairia ileso, mas acho que não cobri direito o mindinho. Toma, usa isso que amanhã é a sua vez! – e atira um pote pequeno com uma pasta cinzenta para o novato.

– Mas, o que é isso? – pergunta o novato, tentando agarrar meio esbaforido o pote, ao mesmo tempo em que tirava a camisa suada e toda suja. O pote cai no chão junto com folhas e galhinhos que despencam da camisa cheia de terra.

– Eu mesmo que desenvolvi. É uma mistura feita de banha de foca e pó de amianto. Isolante perfeito! Amanhã é o seu grupo que vai ter que pisar no braseiro...

– Caramba! Que treco estranho! Funciona? – pergunta o novato enquanto pega o pote.

– Olha é a quinta vez que dou azar e cruzo com esse cara. Mas aumento de vendas que é bom, nada.

– ´Tô falando desta meleca cinza aqui!

– Ah, essa funciona sim. Só não se esquece de espalhar bem...

– Pô, cinco vezes? Se não teve aumento de vendas, porque eles continuam contratando ele?

– Não, você não entendeu. Eu é que já passei por ele cinco vezes, mas em outras empresas. Aqui, é a primeira vez que estão trazendo ele. Parece que continua na moda. É um cara de sorte.

Comigo a história já é diferente. Mudei de emprego várias vezes nestes últimos dois anos e sempre acabo topando com ele.

– Que coincidência, heim... Cinco vezes em dois anos?

– É, acho que esse cara é sádico de nascença, deve fazer de graça só pelo prazer de ver vendedor pisando em brasa. Papo de superação dos medos, se é que você me entende...

– Que idéia louca a deles, né? Contratar três palestrantes motivacionais ao mesmo tempo!

– Pois é, bati um papo com a Martinha. Ela me disse que a idéia da diretoria é usar todos os meios possíveis para acelerar as vendas.

– Nosso grupo ficou abraçando árvores durante uns vinte minutos, depois de caminhar mais de uma hora na mata. Me empresta o Gelol? Estou com os braços moídos...

– Escolheu uma árvore grande, né? – pergunta o cinqüentão enquanto empresta a pomada para o garoto. – As novinhas são as melhores. O tronco é fininho e não dói tanto. Árvore antiga depois de uns três minutos já começa a dar dor no ombro.

– E esses alfinetões ai, pra que servem?

– ´Tá vendo o que dá não olhar a agenda do evento. Hoje tem festa à fantasia surpresa. E o tema será passado quinze minutos antes de começar a festa. Pelos meus cálculos, as chances do tema ser a Grécia são de 99,9%! Quanto tempo você acha que dura um nó bem dado num lençol de cama? Na última vez que participei de um desses, teve gerente que perdeu a fantasia logo no inicio, quando começou a tocar “Eyes Of The Tiger”! Nem deu tempo do cara chegar no “We Are the Champions”...

– E o seu colega de regional onde está ele?

– Teve que voltar pra mata...Perdeu a aliança!

– A aliança? Como ele fez isso?

– Ele andou emagrecendo e na trilha tropeçou e caiu numa poça de lama. Ficou todo enlambuzado. Não deu outra, a aliança deve ter pulado do dedo dele em algum lugar. ´Tá ele e mais uns quatro da equipe de apoio vasculhando o mato com umas lanternas. À noite vai ser bem difícil...

Eis que passam um bilhete pela porta do quarto, onde se vê escrito: “Uma Noite no Pathernon”.

* Este texto foi publicado originalmente na revista PartnerSales de agosto/2009.

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