16 agosto 2011

A geração que não repetiu

Todo empresário ou gestor precisa ser multifuncional. É um montão de conhecimentos, responsabilidades e preocupações só para fazer a caldeira funcionar. Muitas delas são em função do mercado e da concorrência. Outras, apenas para cumprir as exigências ou deficiências do governo. Acredito que teremos de acrescentar mais um item nesta extensa lista: educação básica.

Meses atrás eu perguntei a um funcionário qual era o percentual de e-mails que tinham sido lidos numa ação de marketing que fizemos. Ele ficou mudo. Perguntei de novo e nada. Então pedi quantos e-mails foram enviados e quantos retornaram. Ele me deu as duas informações na hora. Foi ai que caiu a ficha de que o rapaz – apesar de estar no terceiro ano da faculdade – não sabia calcular percentagens.

A maioria dos dirigentes e gerentes está atenta à questão da falta de qualificação dos profissionais que está deixando um montão de vagas em aberto em nosso país. Porém, quando vi a dificuldade daquele funcionário, me toquei que o buraco era bem mais embaixo, pois não estamos falando de conhecimento técnico, mas do básico do básico.

Na área em que sou especialista, para que um vendedor seja eficaz é necessário um conjunto de técnicas sobre negociação, abordagens e estratégias. E é isto o que ensino aos meus alunos. Só que agora, as empresas terão também que começar a se preocupar se seus vendedores sabem calcular um mero desconto ou escrever um simples e-mail em bom português para seus clientes.

Quando comentei o ocorrido com uma amiga que é educadora, ouvi que isso era a “geração dos que não repetiram” que estava chegando agora ao mercado de trabalho. Ela se referiu à progressão continuada de séries, estabelecida em 1996 pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação – que, na prática, fez com que os alunos passassem automaticamente de ano.

Eu acredito que não é só isso. Temos que também levar em conta fatores como a baixa qualidade do ensino e dos métodos usados, a falta de escolas qualificadas e a pouca participação dos pais no processo de educação dos seus filhos. E não se pode descartar a própria tecnologia, pois se de um lado tenho escutado que jogar vídeo games está fazendo que cirurgiões recém formados tenham mãos mais precisas que profissionais com 10 anos de estrada; por outro, as salas de bate-papo, o twitter, o celular e as redes sociais tipo facebook, estão ajudando a destroçar ainda mais o português da rapaziada.

Imagine um vendedor escrevendo num e-mail para o cliente: “Blz, naum tem prob. Axim q xegar o pdido koloko pra fat. []s”. Como empresário e educador, nunca me passou pela cabeça ser necessário aplicar um teste básico para ver se um candidato com nível superior é analfabeto funcional em matemática ou português.

No meu caso, tive que parar o que estava fazendo e dar uma aula de percentagens para um jovem de 19 anos. Também pedi ao gerente dele que ficasse de olho nos e-mails que o garoto escrevia para clientes.

Este funcionário não trabalha mais comigo, mas ele trouxe uma grande contribuição que quero compartilhar aqui: antes de contratar qualquer funcionário, mesmo que tenha diploma universitário ou pós-graduação, peça para ele fazer umas contas, dizer a tabuada e escrever um e-mail. Simples e chato, mas pode evitar que sua empresa tenha que cobrir a lacuna deixada lá trás por “fessoras” ou “fessores”.

Um grande abraço e até o próximo post!

Renato Romeo

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10 comentários:

  1. Realmente podemos perceber isto com frequência dentre alguns dos profissionais atuantes. As escolas já não exercem o controle necessãrio, isto é as provas de multipla escolha, o uso de calculadoras e consultas, a ortografia não é mais necessária nas redações e por aí vai. Não é que eu seja exigente, mas acho que liberaram demais.Tabuada então nem se fala mais; podem acreditar, tive um colega gerente de produtos que é ( esta vivo )fluente no inglês mas o português sua lingua natal era um desastre.

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  2. Renato,

    Você acertou no alvo! Os universitários que se formam hoje deixam muito a desejar e acreditam que um MBA vai coloca-los em destaque. O pior é que muitas empresas também acreditam nisto e mandam embora profissionais experientes para contratar "a geração que não repetiu"
    Parabéns!

    Aventino

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  3. Caros Aventino e Fernando,

    Obrigado pelos seus comentários. Pelo que ouvi desta amiga que trabalha com educação, vamos ter que arrumar uma forma de cobrir as deficiências deixadas pelo ensino. Mais uma tarefa para os empresários...

    Abração!

    Romeo

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  4. Caro Romeo.
    Quem imaginaria ser preciso dar um alerta desta natureza ao mercado?
    Mas, infelizmente, ele é extremamente necessário para os dias atuais. Excelente!!!
    Repito sempre a afirmação, embora não me recorde o autor, que o Brasil somente entrará na fenda do desenvolvimento econômico, tendo governo competente, empresas inteligentes e povo educado.
    Ainda falta muito. Desenvolvimento econômico é muito diferente de crescimento econômico.
    Um forte abraço,
    Márcio Bastos

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  5. Romeo:

    Mais uma vez, um tema atualíssimo.
    Só tem um detalhe... a maioria dos professores é contra a Progressão Continuada. Tem um fator simples: os alunos, no auge da imaturidade (se é que existe limite para isso), simplesmente SABEM que se não fizerem os deveres de casa, se não forem bem nas provas, se não estudarem, "passarão" de série.
    Esse cenário colabora para a perda de autoridade do professor, pois ele não tem mais "compeling events" para os alunos. Afinal qual é a consequência se ele não estudar?
    Vejo que além do apagão que você tão bem mencionou, teremos outro que demora um pouco mais para aparecer, que é o apagão de disciplina, assunto tão requerido em vendas.

    Abraços!

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  6. Caro Augusto Rafael,
    Você está totalmente correto. Como disse, quem me fez o comentário/explicação da "geração que não repetiu" foi uma educadora. Concordo com você que os professores estão também entrando de gaiato neste mecanismo. Coisa de governo, como a tal apostila do MEC que ratificou uma série de impropérios contra nossa língua portuguesa.
    Estou triste com as escolhas políticas que nosso povo esta fazendo. Estou triste com o caminho que nosso povo está tomando, tal qual o Márcio Bastos comenta.
    Acho que tudo isto apenas soma para que se tenha um maior controle sobre a população, afinal de contas, povo que não tem educação, não pensa. E quem não pensa, aceita de tudo e de todos. Teremos então um novo tipo de voto de cabresto, mas promovido não pela opressão ou pela troca de favores, dentaduras ou pés-esquerdos de botinas, mas apenas pela ignorância, pelo não pensar.
    E não se engane, vai sobrar a conta para as empresas, empresários e para o próprio povo da lambança que estão fazendo em nosso Brasil varonil.
    Abração a todos!
    Renato Romeo

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  7. É duro, mas é REAL!!!
    Belo Post....

    Sucesso pra você

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  8. É uma constatação lúcida acerca da realidade brasileira. E, tenho defendido que isto não é somente fruto da internet, mas da filosofia humanista adotada no ensino brasileiro nas últimas três décadas da "nova democracia". Creio que o maior mal que um governo pode imprimir ao seu povo não é uma ditadura, mas negar-lhe um sistema educacional de fato; pois é assim que este povo fica vulnerável a qualquer Estado de exceção. Afinal, se "uma nação se faz com homens e livros", logo, não construímos uma nação nestes últimos trinta anos. Portanto, é hora de começarmos; e parar de vangloriar da nossa "liberdade de expressão" e do nosso "Estado de Direito Democrático". (www.cihgral.com)

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