29 agosto 2016

Compreensão e vida

Pouco tempo atrás, estava cozinhando com um amigo. A intenção era inaugurar uma panela wok nova que eu acabara de ganhar. A pretensão era fazer uma “interpretação pessoal” de dois pratos, um chinês e outro tailandês – frescura de quem curte Masterchef®. Foi quando ouvi dele o seguinte comentário: “– A crise me fez aprender duas coisas: respeitar mais o dinheiro e reconhecer melhor quem são meus amigos”.

Ele é um executivo com larga experiência na área de assistência técnica da indústria automobilística, que há quase dois anos tenta se recolocar no mercado. “– Para aqueles que já chegaram aos cinquenta anos de idade, a crise pegou mais forte”, sentenciou ele.

Crise ao quadrado

Aquelas últimas palavras bateram fundo em mim e fiquei refletindo sobre elas durante vários dias, tentando achar alguma razão para terem me afetado tanto. A conclusão que cheguei foi a de que me vi no espelho. Afinal de contas, eu também havia chego aos 50. Porém, a ficha caiu somente quando ouvi tal constatação em outra pessoa.

Sabe, sempre ouvi falar muito das crises dos 30 anos, dos 40 e assim por diante, ficando atento a estas passagens, até para me compreender melhor e tentar suplantá-las da forma mais harmoniosa possível. Só que desta vez, na dos 50, foi diferente, visto que a “outra” crise, na qual todo o país está mergulhado, vinha arrebatando toda a minha atenção. Ou seja, o fato é que estou vivendo duas crises, a Econômica e a dos 50. Pois é, crise ao quadrado!

Tomando a vida nas próprias mãos

Passados alguns dias, acabei por me lembrar de um livro que havia lido há exatos 15 anos: “Tomar a vida nas próprias mãos”, da Gudrun Burkhard (1929 –). Tentei achá-lo em minha biblioteca, mas recordei-me de tê-lo emprestado para a editora sênior que trabalhou comigo na primeira edição do “Vendas B2B”. Como nunca mais a vi depois do lançamento do meu livro, perdi o contato e aquele livro, tendo que recorrer à internet na tentativa de rever alguns dos conceitos lá expostos.
A Sra. Gudrun é uma brasileira de origem alemã, pioneira em nosso país na  chamada Medicina Antroposófica. A Antroposofia, teoria elaborada pelo filósofo austríaco Rudolf Steiner (1861–1925), propõe um caminho para nosso equilíbrio físico e espiritual, fundamentando-se na ideia de que a vida se desenvolve em fases:
  • -  0 – 21 anos: amadurecimento biológico;
  • - 21 – 42 anos: amadurecimento psicológico;
  • - 42 em diante: amadurecimento espiritual.
Ao se dividir cada fase em três partes, temos os chamados “setênios”, cada qual diferente em conteúdos, significados e desafios.

Referências para o desenvolvimento

Cada setênio teria então, segundo a Antroposofia, uma tônica específica em nossas vidas. Sei que muitos dos que estão lendo agora este texto podem ter mais, ou menos, do que os meus 50 anos, mas vou tomar a liberdade de falar somente do meu setênio, compartilhando algumas das minhas conclusões. Isto porque se para você elas fizerem sentido ficará aqui o caminho para a busca de sua própria compreensão pessoal. Se há certas leis comuns a todos nós no desenrolar de nossas histórias de vida, tal conhecimento pode ser útil para que cada um estabeleça alguns pontos de referência para o próprio desenvolvimento pessoal.
O oitavo setênio se inicia aos 49 anos e dura até os 56. Daí a primeira constatação: da mesma forma que a chamada “crise dos 30”, na verdade, pode ser a dos 28 ou a dos 35 – minha idade quando li o livro da Gudrun pela primeira vez –, a crise dos 50 começa antes, isto é, aos 49 anos. Ou seja, ano passado, quando nossa real situação econômica foi descortinada aos olhos de todos.

Espiritualidade e vendas

Segundo a Antroposofia, este setênio estaria marcado por uma busca de maior interiorização e religiosidade, diante do declínio físico vindo com a idade. A questão espiritual da vida ganharia mais relevância, sendo um período de consolidação da sabedoria e afloração do desejo e disponibilidade de servir aos outros. É uma época que possibilita uma visão mais ampla do sentido das coisas e da própria existência, onde valores pessoais dão lugar a valores mais universais e humanitários.
Este aspecto bateu totalmente com o momento que vivencio agora. Por alguma razão, a busca pela espiritualidade se intensificou em mim desde o ano passado, culminando em meu ingresso para uma ONG Espírita, voltada à caridade. Você pode estar pensando: “– Mas o que isto tem a ver com vendas, Romeo?”. E eu lhe respondo: tudo, ou, minimizando, muita coisa! Quer ver?
  • Aprender: uma das máximas de qualquer doutrina espiritualista bem fundamentada é que estamos de passagem no plano terrestre para aprender e evoluir. Em toda minha carreira como especialista em vendas, sempre defendi que a principal habilidade de um vendedor bem-sucedido é seu desejo genuíno de aprender. O resto se desenvolve.
  • Caridade: um vendedor para ser bem-sucedido precisa se colocar no lugar do próximo e pensar com os sapatos dele. Não se vende pensando no “eu”, mas em como podemos ajudar o próximo. Esta é uma das regras de ouro na vida e nas vendas.
  • Humildade: a grande diferença entre a inteligência e a ignorância é que a primeira tem limite. Ao compreender melhor nosso papel nesta existência, diante da grandeza de tudo o mais, abandonando a arrogância, a indiferença, os preconceitos, somos mais bem-aceitos pelos que nos cercam. Quanto de esforço se faz para que um cliente, simplesmente, aceite um vendedor?
Logicamente existem outras convergências, mas acredito que já consegui esboçar meu ponto de vista. 

Vazio interior e conversas amigáveis

Ainda segundo a Antroposofia, durante o oitavo setênio pode advir um sentimento de inutilidade e vazio. Um dos questionamentos que surgiria nesta fase é se aquilo o que se faz tem algum valor para o mundo ou para a humanidade. E não é que a teoria bateu novamente com a minha realidade?
Lembrei-me prontamente de uma conversa que tive com minha mulher, sobre se fazer o que vinha fazendo há 18 anos com a SaleSolution ainda teria valor paras as empresas. Confidenciei, inclusive, a dificuldade com a qual andava lutando para escrever, pois tudo o que me vinha na cabeça parecia que eu já havia abordado em algum outro texto. Ela gentilmente olhou nos meus olhos e perguntou: “– Ainda existem vendedores e empresas cometendo erros e perdendo negócios?”. Respondi que sim, que a todo o momento vendedores falam com pessoas erradas ou da forma errada; expõem suas ofertas da forma indevida; dão descontos sem necessidade e assim por diante. Perdem tempo, dinheiro e qualidade de vida por não saberem ou não usarem conceitos e técnicas que os ajudariam a serem mais efetivos; a terem, enfim, uma vida melhor. Ela me respondeu: “Então, o que você faz ainda é útil.” Virou-se e continuou serenamente a fazer o que estava fazendo.
Compreender que, na verdade, a sensação de vazio era normal na fase pela qual passo, me deu tranquilidade para pensar melhor sobre as diferentes formas com as quais eu poderia contribuir para ajudar pessoas e empresas a venderem melhor. Num estalo, me veio a figura de um produtor artesanal de salame. Sim, salame!
Não ria. Não tenho culpa, foram apenas pensamentos. Fiquei imaginando como um sujeito que durante anos ficou fazendo sempre a mesma coisa, por exemplo, salames – fazendo bem, mas ainda a mesma coisa –, encontrava vibração no seu dia-a-dia. E me lembrei de algumas conversas boas que tive em algumas vinícolas pelas quais passei em alguns momentos da vida, experimentando vinhos e produtos artesanais. Recordei dos sorrisos e da conversa amigável e feliz que tive com alguns daqueles senhores e senhoras.

Sabedoria e entrelinhas

Uma vez que o próprio destino já não tem mais tanta importância, o oitavo setênio seria também um momento de maior harmonia com a vida. Acaba-se buscando um novo ritmo biológico, onde se aprende a ouvir mais a nossa voz interior. Não se trata mais de forçar as coisas e sim, obedecer aos próprios sentimentos, desenvolvendo mais a paciência. Esta pode ser uma fase de bastante sabedoria.
O senso ético e a capacidade de ouvir e sentir atingiria um nível mais elevado, possibilitando se interpretar uma mensagem e escutar uma pessoa, compreendendo-se realmente o que está sendo transmitido nas entrelinhas. As afirmações dão seu lugar às perguntas, pois passamos a perceber que por meio das perguntas certas, feitas nos momentos adequados, podemos ajudar mais as pessoas, muito melhor do que tentando convencê-las.
No oitavo setênio, o ser humano conseguiria enxergar melhor uma situação por diversos ângulos, tendo um nível de percepção e julgamento mais maduro, adquirindo-se uma maior capacidade de preparar as outras pessoas para seus desafios e obtendo maior prazer no desenvolvimento dos outros.

Mentoring e coaching

Estas últimas características do setênio que vivencio acabaram por trazer uma das respostas que procurava, isto é, por quais formas diferentes eu poderia contribuir para ajudar as pessoas, ou mesmo as empresas, a melhorarem sua capacidade de vendas e negociação. Tomei, assim, a resolução de aumentar meu foco de atuação por meio do mentoring e coaching personalizado. Na verdade, há cerca de dois anos vinha fazendo alguns testes, mas de forma muito tênue, sem qualquer alarde, com pessoas que buscavam minha ajuda, não necessariamente para um treinamento, mas para uma orientação mais individualizada e especifica.
E como agora vivo no interior do interior, a forma de chegar até elas será prioritariamente a internet, o que acabará trazendo praticidade às pessoas, pois as conversas poderão acontecer independentemente do local em que elas estejam e com uma maior liberdade de horários para se estabelecer uma agenda em comum – caso você tenha interesse, me escreva ou ligue, será um prazer poder atendê-lo e, quem sabe, trabalharmos juntos: romeo@salesolution.com.br e (11) 94739-1913. 

Conclusão

É óbvio que cada história de vida é única, não havendo duas iguais. É certo também que o conceito de ler a vida por meio de ciclos não nasceu com a Antroposofia de Steiner. Na China, por exemplo, desde longas datas se diz que o ser humano tem vinte anos para aprender, vinte para lutar e vinte para se tornar sábio. Porém, descobrir dentro de tamanha multiplicidade de vivências o que é comum a todos, pode ser uma das chaves para compreendermos muitas das questões com as quais nos defrontamos ao longo de nossas vidas. Fica aqui a dica!

Boas vendas e excelentes negociações!

Renato Romeo
Sócio-Fundador
SaleSolution Desenvolimento de Vendas

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